Crítica: “Missa da Meia-noite”, morte, luto e redenção

por Rodrigo Castro
19/10/2021
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Pra escrever sobre Missa da Meia-noite é preciso tanta paciência quanto para assistir à série – e não, isso não é uma crítica negativa. Tratando de temas pesados, mas que nunca saem de nossos pensamentos, como morte, luto, redenção e o sentido da vida, a minissérie criada pelo excelente Mike Flanagan tem a dose certa de terror e horror numa trama que envolve catolicismo, islã, um demônio, zumbis, uma cidade ilhada e muita, mas muita hipocrisia.

Creio inclusive que a série se beneficiaria do modelo clássico de fruição de séries, com um episódio por semana. Não sou do time que classifica uma série como “lenta” para dizer-lhe algo negativo, mas de fato o ritmo de Missa da Meia-noite não é dos mais emocionantes. São horas de diálogos engajados uns nos outros, já que a própria narrativa se desenrola a partir das missas do padre John Pruitt (Hamish Linklater). Os sermões estão em todo lugar, com discussões às vezes acaloradas, às vezes acalentadoras sobre nossa existência num universo imensurável. E, tal qual um sermão de um padre, digerir os episódios com tempo e espaço mais dilatados provavelmente teria feito a experiência de assistir a Missa algo mais encantador.

Antes, contudo, vou me permitir uma digressão, fazendo jus aos sermões da série:

Quando era um adolescente, lá pelos meus 14, 15 anos, cogitei, de fato, me tornar padre. Desde meus 9 anos estudei em escolas católicas: primeiro, no sistema Arquidiocesano, de Belo Horizonte; depois, no sistema Salesiano, em Lorena, no interior de São Paulo. Foi nesta última que senti o chamado. O fato é que tudo o que há de ritualístico me admirava, então senão padre, ao menos diácono. Eu realmente sentia um prazer de ver o efeito de uma homilia, o efeito de uma pregação, o efeito da caristia. Aos 14 anos participei da Missão Salesiana, e era um momento de conexão com diversas pessoas que muitas vezes não tinham como professar sua fé, pois a igreja local estava abandonada ou coisas desse tipo. No fim e ao cabo, abandonei a Igreja, mas nunca deixei de nutrir certa admiração e curiosidade sobre o catolicismo, e isso se estendeu a muitas outras religiões.

E daí que uma série como Missa sempre vai chamar minha atenção para além de diagnósticos do tipo “é lenta”, “é muito parada”, “tem muita exposição” etc.

Pra onde vamos – se é que vamos

Ser imortal já foi tema visto e revisto em diversas obras audiovisuais, muitas delas adaptações literárias. A ideia de vencer a mortalidade e assim viver eternamente, suplantando a própria história da humanidade, já rendeu excelentes obras. Essa ideia, por sua vez, é muito seriamente discutida na Bíblia e outros livros sagrados. No caso católico, a vida eterna é uma promessa para o pós-vida terreno – é uma promessa que depende única e exclusivamente da fé, certo? Afinal, ter que esperar morrer pra viver eternamente é um conceito um tanto quanto estranho. Qual é a graça?

E se, contudo, a graça fosse alcançada por aqui mesmo? Claro, com o preço de nunca mais poder ver a luz do sol sob risco de se decompor num doloroso processo de combustão, e depender de uma dieta carnívora-e-por-vezes-canibal. Que pessoa estaria disposta a trocar sua mortalidade – e, junto com ela, a perspectiva de morrer que fica cada vez mais próxima com o passar do tempo – para perambular erraticamente nas sombras feito zumbi e chupando sangue feito um vampiro? Em Missa da Meia-noite o que não falta é gente querendo alcançar a graça divina enquanto ainda está viva.

E o que dizer do Quero-ser-Lúcifer que começa toda essa história na Terra Prometida, durante a peregrinação de Pruitt? Tal qual o Anjo Caído, aquele Anjo assusta tanto quanto encanta: é horroroso, parece um monstro, um vampiro, mas ao mesmo tempo exerce um fascínio que só pode ser caracterizado como celestial – ou infernal.

O heroi não morre no final

A jornada de Riley Flynn (Zach Gilford) é também muito cursiosa. Primeiro, por ser o redentor de Cockrette: ele se sacrifica para mostrar a verdade ao Povo, ainda que apenas através de sua namorada Erin Greene (Kate Siegel). O efeito, como era de se esperar, não é imediato, nem muito menos eficaz, já que toda a cidade só se dá conta do tamanho do buraco em que se enfiaram quando Pruitt já havia iniciado sua matança-ressurreição-em-massa. Porém, o gesto de Flynn continua pleno de valor simbólico: ele é uma espécie de Messias, que encontrou no próprio sacrifício a única forma de fazer-se entender e compreender – evocando, literalmente, a história de São Tomé, tão cara ao dogma cristão.

Segundo, porque a morte de um protagonista da maneira como foi executada, no penúltimo episódio da série, é também simbólica dentro da narrativa: personagens principais costumam ter vida eterna dentro de suas obras, garantindo a completude da jornada do heroi que (se) redime e salva a todas e todos. Flynn se sacrifica antes do derradeiro final, abrançando sua mortalidade como personagem.

A danação eterna

Flanagan representa o Catolicismo de uma forma crítica sem nunca ser desrespeitoso ou debochado, como muitas vezes é comum assistirmos em obras baseadas em religião. É fácil e desejável cair na vala comum de condenar pessoas que têm fé em alguma religião e tratá-las sempre como fervorosas defensoras de crendices. Missa da Meia-noite passa bem longe dessa tentação, e, ao contrário, apresenta a como uma característica boa e virtuosa das pessoas, que pode ser manipulada por líderes inescrupulosos em qualquer congregação e qualquer religião.

Contudo, algo continua, aparentemente, um problema eterno quando se fala de Catolicismo: a mulher é sempre o motivo da desgraça, da danação, dos caminhos desviados – em suma, da derrocada da humanidade.

Antes que venham me lembrar do papel importantíssimo de Santa Maria Mãe de Deus e todas as outras santas e mulheres fundamentais da história católica, como Maria Madalena, ressalto: a crença católica pressupõe que as mulheres sejam sempre exemplos de conduta virtuosa, ilibada, pura, virginal. A condescendência aos pecados e ofensas dos homens é sempre desproporcional aos mesmos pecados e ofensas cometidos por mulheres (ou houve, em algum momento, uma grande caça aos bruxos na história Católica?).

Assim, Bev, a beata que todos odiamos com todas as forças possíveis, representa, mais uma vez, a mulher-pecadora herdeira de Eva, cujo destino já está traçado desde sempre: ela deve ser o motivo do desgraçamento da comunidade de Crockett. Não há escapatória, e sequer há redenção. Quem é que convenceu os cidadãos e cidadãs a vender suas propriedades para a companhia petrolífera? E quem é que acusam, às escondidas, de ter pagado para si mesma o dinheiro e investido num grande centro que ninguém sabe qual será a serventia?

A personalidade de Bev já indica que ela é o Judas da vez: o tempo inteiro acompanhamos ela em atitudes suspeitas – como quando perambula pela vila com o veneno de rato -, e seu fanatismo é facilmente odiável – a discussão debochada e passivo-agressiva com o sheriff Hassan na escola é o ponto alto da exibição de seus preconceitos e intolerância religiosa. É pra ela que dirigimos nosso ódio quando pensamos no absurdo do suicídio coletivo prestes a acontecer na congregação.

E Bev e só mais uma mulher que se desvia dos caminhos virtuosos que Cristo indicou, e por isso mesmo não merece ser salva. O final de Missa é o símbolo do patriarcalismo e da misoginia que são, de certa forma, inerentes às interpretações dos textos bíblicos ainda hoje: enquanto Bev cava desesperadamente um buraco para se enfiar no chão para tentar escapar da morte certa, John Pruitt, o padre virtuoso que volta na figura de um jovem enérgico e carismático, que quebra o celibato e tem uma filha com uma das fieis da Santa Igreja em Crockett, que traz um Anjo-caído em sua mala depois de peregrinar pela Terra Santa e convence quase todo mundo a se sacrificar em nome da vida eterna na Terra, é salvo, perdoado e encontra a paz em sua própria fé.

Bev morre desesperada, sentindo todo o peso e a dor de uma combustão dolorosa, pois este é o recado bíblico para mulheres que se desviam; já Pruitt morre em paz, ao lado da mulher amada, de certa forma regozijado por reencontrar paz de espírito enquanto se despede de seu corpo terreno.

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