Crítica: Testimony (4×8) de The Handmaid’s Tale

por mixidocultural@gmail.com
07/06/2021
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Em Testimony, logo na primeira cena, June se prepara para um momento que exigirá muita força. Com frequência, as obras de ficção representam seus personagens cortando os próprios cabelos em momentos de reviravolta. O desejo de um recomeço é outro motivo para esse fato ser incluído na narrativa. Na 2ª temporada, em uma das tentativas de fuga, a personagem já havia cortado seus cabelos. A cena simples, mas significativa, representa não só um desejo, mas também um sinal de que a vida de June toma agora um novo rumo.

O episódio 8 da 4ª temporada de The Handmaid’s Tale traz diversos paralelos com momentos anteriores da série. O círculo da terapia em grupo se assemelha à disposição das Aias no Centro Vermelho. Quando a tia Irene entra no círculo para se desculpar com Emily, também há um paralelo das Aias se julgando em Gilead. A posição de June no depoimento lembra o episódio em que Serena resolve se posicionar por mais liberdade das mulheres em Gilead e tem o dedo cortado. A maneira como June se posiciona na escada para escutar a conversa de Luke e Moira relembra como ela andava sorrateira na casa do casal Waterford.

Em Home, Moira, Rita e Emily já se mostravam prontas para seguir em frente e, em Testimony, foi a hora de Moira dizer que todas elas estão procurando uma maneira de seguir em frente. A terapia em grupo se mostra como uma bela rede de apoio entre as mulheres que escaparam de Gilead. As mulheres, antes proibidas de ler em Gilead, agora têm como cenário de reunião uma biblioteca.

O depoimento de June é um soco no estômago e é dolorido relembrar tudo pelo que ela passou nas mãos dos Waterford. A cena é bonita, impactante e talvez elogiar Elisabeth Mossa seja chover no molhado aqui. A atriz também é diretora do 8º episódio.

O plano do depoimento começa aberto e vai se fechando, June que tinha o olhar em direção aos juízes, volta o olhar diretamente para a câmera numa quebra de quarta parede. A personagem olha para cima enquanto relata todas as torturas que passou e olha para o espectador quando faz um discurso universal sobre as outras mulheres que sofrem e morrem nas mãos de homens como Fred Waterford.

Luke desrespeita a vontade de June, neste episódio, e aparece no tribunal. Este homem age como se o assunto fosse sobre ele, como se o seu sofrimento fosse mais relevante que o da esposa. Isso é muito chato, mas reflete a posição de algumas pessoas da vida real.

Em Home, June havia poupado Luke da realidade do seu último encontro com Hannah, ela parecia ter escolhido carregar este peso sozinha. Agora que ele já sabe de tantas coisas horríveis sobre Gilead, June resolve retomar o assunto e abrir o jogo.

Testimony explora os sentimentos humanos de forma muito rica. A presença de uma ex-tia levanta a discussão sobre a possibilidade de perdão para os que praticaram tantas atrocidades em Gilead. Como é possível Emily perdoar a pessoa responsável pela morte da mulher por quem ela era apaixonada e responsável pela mutilação que ela sofreu? A abordagem da raiva em todo esse seguimento é brilhante. Cada pessoa reage de uma forma, a raiva é um impulso transformador e negado às mulheres.

É óbvio que Tia Lydia está frustrada pela fuga de June, mas algo novo em Testimony é colocado. Lawrence chama a atenção sobre ser desnecessário o uso de muita força na nova “geração” de Aias no Centro Vermelho. Diferente das Aias do grupo de June que se revoltavam por conhecer a liberdade, por desejar recuperar sua vida anterior, essa remessa não conheceu um mundo muito diferente de Gilead. Enfim temos uma triste atualização sobre Janine. A personagem tão querida de volta a Gilead é de cortar o coração.

Os fãs do casal Waterford na porta do tribunal é de dar ódio, mas não é nada muito diferente da nossa realidade atual, com um crescimento de adoração a figuras fascistas regadas a fake news e muita intolerância. Não seria surpreendente ver Fred e Serena Waterford concorrendo a algum cargo político por aí. Fica uma dúvida no ar para ser, pelo menos parcialmente, respondida nos próximos dois episódios: qual o destino dos Waterford, eles vão sofrer consequências e qual o destino do bebê?

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