Notas sobre o anti-colonialismo do Forensic Archtecture

por Rodrigo Castro
04/10/2021
Comentários 0

A pandemia da Covid-19 nos permitiu constatar, a olho nu, como verdadeiros e verdadeiras testemunhas da história, os efeitos nefastos do colonialismo europeu e estadunidense-israelense: se, apesar da devastação e milhares de vidas perdidas durante a pandemia nestes continentes, os países do Norte global conseguiram 1) garantir vacinas e vacinação e 2) desacelerar as mortes que estavam se acumulando em números cada vez mais absurdos (ainda que os EUA enfrentem situações variadas em cada Estado), nós, no Sul global, tivemos que nos dividir entre lutar contra governos genocidas e irresponsáveis, como o de Jair Bolsonaro no Brasil, e cobrar enfaticamente por uma distribuição menos concentrada de vacinas. Uma análise dos filmes Estudo de nuvens e Se o ar tóxico é um monumento à escravidão, como o derrubamos?, do Forensic Archtecture, nos permitem um olhar aguçado sobre o tema.

A pandemia sequer foi uma barreira para cessar a sanha violenta e destruidora das práticas colonialistas – e, de uma forma mais ampla, capitalistas, que se nutrem justamente a partir das e com as primeiras. Pelo contrário: acentuou processos violentos de ocupação territorial, memorial e imaginária.

Em Estudo de nuvens o coletivo Forensic Archtecture propõe uma nova enciclipédia sobre as nuvens, evocando o trabalho do clássico dos anos 1930, a partir de nuvens geradas pela destruição, pilhagem, violências e repressão em diversos territórios ao redor do globo. A questão territorial, aliás, é central nesta discussão: afinal, o que é o colonialismo senão justamente a invasão de um território a partir de uma justificativa qualquer de grandes impérios, seja esta invasão feita literalmente, como atualmente ocorre na Palestina, seja ela feita a partir do imaginário, infiltrando no território uma ideologia capitalista muito específica? Colonizar é sinônimo de capatalismo, e também sinônimo de destruição, invasão, morte, repressão.

O trabalho formal do FA é espetacular. Contudo, a forma jamais suplanta o poder ideológico explícito nas obras: é preciso pensar alternativas concretas ao colonialismo do ar. Em Se o ar tóxico… essa ideia é facilmente compreendida a partir da luta de negros e negras do movimento Rise St. James pelo direito de manter suas memórias e suas ancestralidades vivas, apesar da insensibilidade e violência dos loteamentos industriais de gigantes do setor petroquímico na Louisiana, EUA.

Se antes eram necessários caravelas, tanques, porta-aviões e todo tipo de veículo para levar a cabo os objetivos colonialistas do Norte global, atualmente o próprio ar se converteu em instrumento de guerra contra povos oprimidos em diversas regiões. Tomemos como exemplo o uso proposital de agrotóxicos para liberar a visão de tiro de soldados israelenses em sua contínua limpeza étnica na Palestina, ou então as queimadas na Indonésia que chegam ao ponto de impedir a identificação de onde partiram. A semelhança deste último caso com o modus operandi das gigantes do agronegócio no Brasil não são mera coincidência, visto que o ar também se tornou ferramenta para violentar povos indígenas e eliminá-los de/em suas terras.

Não basta, contudo, identificar estes horrores como produtos isolados. É preciso ir fundo nas causas do que os filmes apontam como colonialismo do ar, como bem o faz o FA. A lata de gás lacrimogêneo que deixa sem respirar manifestantes do Black Lives Matter, nos EUA, indígenas da região de Vaca Muerta, na Argentina, e palestinos e palestinas anti-colonização israelense, em Gaza, compartilham muito mais do que fabricantes em comum: são fruto de um mundo destruído e vandalizado pelo capitalismo e seu filhote preferido, o colonialismo.


Os filmes foram assistidos durante a 15ª CineBH

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *