O cinema militante e sensível de Cecilia Mangini

por Rodrigo Castro
14/04/2021
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O programa de estreia do Another Screen, o streaming da revista Another Gaze, nos introduz ao universo da cineasta italiana Cecilia Mangini, que também era uma militante comunista. Essa característica, aliás, marca presença em suas obras – às vezes de forma muito evidente, às vezes no subtexto, nas entrelinhas.

Em Stendali: suonamo ancora, Maria e i giorni e Divino amore, Cecilia apresenta rituais religiosos em vias de extinção e/ou extintos, ligados ao cristianismo e ao catolicismo ortodoxo, às vezes documentando o trabalho coletivo como em Stendali e Divino amore, às vezes através de um olhar mais íntimo, como em Maria. Em todos os filmes, a poesia e o lirismo marcados pelo próprio ritmo dos rituais religiosos são potencializados pelo texto que vem de fora, seja em letterings ou narração.

Essere donne, Brindisi ’65 e Tommaso são obras mais engajadas, que ressaltam a militância comunista e revolucionária de Cecilia. São obras que refletem sobre a condição das trabalhadoras e trabalhadores no contexto italiano pós-II Guerra Mundial, com toda a complexidade envolta nesta situação: a Guerra Fria, as diferenças e desigualdades sociais acentuadas entre o Sul e o Norte italiano e a derrocada, ao menos enquanto sistema político vigente, do fascismo. Destaque para Essere donne, que, como o nome já indica, é um filme dedicado às mulheres trabalhadoras do campo, da indústria e da casa. Ainda atualíssimo, é sensível sem romantizar uma situação de precariedade intrínseca à luta de classes que requer atenção e valorização, mas que ainda está longe de ser resolvida.

Por fim, em La canta delle marane e La briglia sul collo, Mangini volta sua câmera para contemplar a infância e juventude; no primeiro, novamente numa experiência coletiva de meninos que se banham numa lagoa nos subúrbios de Roma, onde se divertem candidamente até serem bruscamente interrompidos pela polícia; no segundo, questionando a categoria de rebelde e o que ela significa – vários rebeldes e “desajustados” da sociedade tornaram-se gênios – através da vida familiar de Fábio, um garotinho de 7 anos que desperta muitas paixões, nem sempre boas.

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