Olhares necessários e urgentes (e potentes)

por Rodrigo Castro
15/04/2021
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A necessidade de reformatar e de(s)colonizar nossos olhares nunca esteve tão urgente quanto agora. Num momento em que os serviços de streaming de cinema e séries começam a dominar o mercado de exibição, na maioria das vezes de forma até predatória a partir da consolidação de grandes corporações de mídia em nosso país, estrangeiras ou nacionais, com suas obras quase sempre monocórdias a partir de matrizes já desgastadas, notadamente a estadunidense; e num momento em que criadores de conteúdo aumentam tanto em número quanto em tempo dedicado a comentar, analisar e explicar essas mesmas obras, voltar o olhar para outras criações e criadores/as tornou-se um dever imperativo para enfrentar essa pasteurização mediocrizante.

Nesse contexto, mais uma mostra de cinema ganha o espaço online, aberto e gratuito: a Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte. A programação é tão potente quanto cada uma das obras que a compõe, dividas em três seções de uma mostra principal, Cine-escrituras pretas, que serão analisadas a seguir.

Vivências afro-diaspóricas

Com o título auto-explicativo, é a seção mais forte em discurso e forma. Mesmo que algumas obras apresentem uma decupagem e uma narrativa mais tradicionais (o que de forma alguma é ruim, apenas uma característica), todas apresentam, de forma mais ou menos simbólica, preocupações latentes e urgentes dos povos negros, representadas através da violência, do reconhecimento da história desses povos e da necessidade urgente de descolonizar o imaginário.

A morte branca do feiticeiro negro, de Rodrigo Ribeiro, é sem dúvida um dos maiores expoentes disso. Sua montagem de contrastes entre passado e presente convida a uma reflexão profunda sobre a história racista do Brasil, culminando na exploração de uma foto de arquivo de um cafezal, onde vemos o capataz dominar opressicamente o trabalho de pessoas negras escravizadas, enquanto a carta de um ex-escravizado que se suidicou ainda ecoa em nossa cabeça. É violento, e necessário.

Nesse mesmo tom, e também explorando fotos de arquivo (neste caso, pessoais), Thinya, de Lia Letícia, usa de muita ironia, sarcasmo e deboche ao contrastar as fotos encontradas num álbum num mercado de rua em Berlim com o texto narrado pela personagem-título, retirado de dois relatos da época colonial no Brasil: Duas Viagens ao Brasil (1557), de Hans Staden, e Viagens pelo Brasil (1823), de Spix & Martius. Traduzidos para o yaathê, língua dos Fulni-ô, o curta apresenta possibilidades decoloniais que invertem a perspectiva normalizada, em que povos indígenas são vistos como seres exóticos e o branco europeu como símbolo-marco civilizatório.

Por fim, o último destaque desta seção é Obatala film, de Sebastian Wiedemann, que ele mesmo define como “filme-oferenda”. É, também, um filme-convite para um transe a partir de um ritual yorubá em Ilê-ifé que conecta Nigéria, Colômbia e Brasil através de um experimento poético audiovisual. É pura sinestesia, aguçar os sentidos, se deixar entregar ao transe.

Afetos e partilhas

Tempos como o que vivemos também requerem momentos para relembrar e experimentar, ainda que mediados pela tela, experiências compartilhadas com quem amamos. Não como forma de se alienar ou esquecer os problemas, ainda mais os estruturais, que nos afetam, mas sim buscar força e alegria em afetos.

Movimento, de Gabriel Martins, é a síntese: ao final do filme, Gabriel, num áudio de WhatsApp, confessa ao amigo que apesar de tudo tem a filha, Tereza, de quem cuida com a companheira, Rimenna. É a nova vida, gestada e nascida em meio a uma pandemia de um vírus mortal, quem provoca o sentimentos de esperança e conforto – ainda que a realidade continua se mostrando em toda a sua crueza.

Relações familiares também dominam a narrativa de Bonde, de Asaph Luccas, mas com uma pegada diferente. O acolhimento dos núcleos familiares tradicionais é substituído pelo acolhimento entre famílias formatadas a partir de sensibilidades mais reais e verdadeiras, a partir do carinho de fato estabelecido entre pessoas que se amam por compartilharem gostos, necessidades, preocupações e objetivos em comum.

Por fim, seguindo a formatação, o último destaque vai para , de Ana Flávia Cavalcanti e Júlia Zakia. Com um certo suspense no ar, o final é catarse, partilha e comunhão, numa grande banquete celebrado também por uma família configurada por outras afetividades que vão além dos laços consaguíneos.


Este texto não tem nenhuma pretensão de ser uma palavra final, e nem poderia, sobre nenhum dos filmes. Apenas destaco alguns títulos dentro da Semana de Cinema Negro que me marcaram e me fizeram refletir, chorar e sorrir. São obras tão diversas quanto poderiam, tão potentes quanto deveriam, apresentando olhares e sensibilidades que por muito tempo foram invisibilizadas, mas que agora já ninguém mais pode fingir que não existem.

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