Rituais de comer, rituais de resistir, rituais de viver

por Rodrigo Castro
15/04/2021
Comentários 0

Duas seções de filmes bem distintas marcam o segundo programa da Another Gaze do Another Screen. Começo por Eating / The Other, que apresenta seis filmes que giram em torno de rituais de comida e de comer e suas potências.

Três dessas obras formam uma sub-seção, tanto pela duração, quanto pelo experimentalismo, passando pela subversão dos discursos.

Melons é uma performance visceral de Patty Chang, que apresenta uma dialética violenta sobre tradições e o corpo feminino. O texto trabalha quase em direção oposta à imagem em movimento, enquanto percebemos que o trauma narrado é o pano de fundo de toda a ação – que no final, como Daniella Shreir foi feliz em apontar, resulta praticamente num ato de auto-canibalização.

Violência também de certa forma é o tema de Popsicles, dirigido por Gloria Camiruaga no Chile e nos EUA. Aqui, porém, ganha ares mais simbólicos: diversas mulheres estão lambendo picolés que revelam soldados e esqueletos, enquanto entoam uma Ave Maria. Ser um filme estadunidense-chileno evoca memórias não muito agradáveis da nossa situação colonial na América Latina – antes pela invasão europeia, agora pelo sistema capitalista dos EUA, que espiona, invade, destroi e reconstroi o continente a seu bel-prazer. O esforço imperialista, contudo, não seria tão fácil se não contasse com instituições dos próprios países envolvidos, como é o caso do Chile do sanguinário de extrema-direita Augusto Pinochet, general que instituiu uma ditadura militar durante 17 anos, e a Igreja Católica, que sustentou o golpe e o próprio regime durante anos – as coincidências com o Brasil são perturbadoras.

O último título dessa sub-seção é The sweet number: an experience of consumption, de VALIE EXPORT. A crítica a um sistema político-econômico-social é até bem óbvia: VALIE usa uma caixa de bombons gourmet (!) como uma espécie de objeto de arte, sugerindo que até mesmo um quadro de van Gogh pode ser substituído pela capa da embalagem, ela mesma um quadro magnífico de uma cartão-postal austríaco, a Catedral de Santo Estevão. EXPORT debocha não apenas do grande quadro, mas também de uma certa burguesia que usa uma caixa de bombons como mais um símbolo de distinção.

Os outros três filmes são maiores em sua duração e já não tem uma forte ligação entre si para além do tema proposto no programa – os rituais de comida.

Rat life and diet in North America, de Joyce Wieland, é um libelo anti-guerra e anti-imperialismo estadunidense. Feito no calor da Guerra do Vietnã, o filme exalta a liberdade através da jornada de fuga de alguns gerbos. O roimento da bandeira dos EUA por alguns gerbinhos e as imagens grotescas do corpo de Che Guevara complementam o tom engajado do filme, ressaltando os horrores e consequências nefastas da política imperialista estadunidense.

O trabalho da mexicana Chick Strand em Fake Fruit Factory é sensual – não num sentido puramente erótico – e sinestésico. Os sentidos ativados normalmente por um filme são aguçados pela câmera sempre em close nas jovens mulheres que fabricam frutas de papel. Nunca as vemos completamente, nem escutamos tudo o que elas falam, nem sabemos tudo do que fazem, mas não precisa. A proximidade da câmera nos aproxima literalmente de um cotidiano fabril-artesanal, culminando no piquenique final. Em comum, um problema central: homens.

The sandwich, de Ateyyat El Abnoudy, é o mais narrativo de todos os filmes – o que não é demérito nenhum, apenas uma característica do curta. Com pouquísimos diálogos, o filme nos convida a partiticipar de um ritual culinário do princípio ao fim: mãos de mulheres que preparam uma massa, que se torna um pão, que por sua vez será comido por crianças. A obra apresenta um lirismo sinestésico: dá pra sentir o cheiro do pão, o gosto do leite da cabra, o calor do forno – tudo isso numa experiência coletiva fraternal. Até a hora que passa o trem…


Na primeira parte do programa, Hands Tied, os dois filmes se distanciam em forma e conteúdo, mas ambos tratam de problemas sérios de nossa sociedade.

Maria Lassnig usa do humor, ironia e animação em Palmistry para criticar o machismo. Primeiro, durante a canção da personagem principal, que deixa claro que ao comer (uma ligação possível com o resto do programa, aliás!) não pode se causar mal, diferentemente de quando se relaciona com homens que só a maltratam. Depois, quando passa para uma sessão de leitura de mão através de um quiromante charlatão e sexista, para quem todos os problemas e destinos da mulher estão vinculados justamente à sua condição de ser mulher. Ela, no entanto, responde de pronto, expondo ao ridículo o quiromante, o que faz com que o fatalismo de uma péssima leitura de mãos seja confrontada com os desejos dessa mulher.

A rough history (of the destruction of fingerprints) é tão diferente quanto possível de Palmistry, apenas compartilhando as mãos como ponto de partida do filme. Nele, Ayesha Hameed usa recursos que evocam o sistema policial e judiciário de identificação das pessoas através das digitais para questionar e confrontar um outro sistema, de controle social a partir do Estado e corporações, baseado em catalogar, vigiar, punir e excluir pessoas.

“O sistema EURODAC exige a recolha de impressões digitais de todos os requerentes de asilo no momento da sua entrada na União Europeia (UE). Foi criado a fim de controlar a rota de trânsito dos requerentes de asilo na UE. O sistema leva as pessoas que estão desesperadas por encontrar proteção, segurança, uma oportunidade de viver melhor, a “cortar ou queimar deliberadamente as pontas dos dedos”. Após a introdução da base de dados, um membro do Conselho de Migração Sueco relatou “cicatrizes de facas e navalhas, ou padrões inteiros [impressões digitais] que são totalmente destruídos por terem sido submetidos a ácido ou algum outro tipo de produto para destruir as suas mãos.”

Se, por um lado, o modelo de sociedade europeu, calcado no liberalismo e na social-democracia, é exaltado e exportado através de propaganda, por outro o sistema (Estado e demais instituições – família, religião, empresas etc) que garante a manutenção desse modelo se encarrega de afastar os “indesejados”, os “vagabundos”, os “sem documento”.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *