Silêncios e sorrisos

por Rodrigo Castro
29/04/2021
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Escolher se calar ou não deveria ser uma possibilidade concreta para todos nós, que nos consideramos livres ou indivíduos em sociedades livres. Ter essa opção viável apenas reforçaria a liberdade de cada um, ao poder falar quando, onde e o quanto quisesse – incluindo o simples ato de não falar. A verborragia que muita gente vê como um defeito em outras pessoas só pode assim ser considerada porque compreendemos, de uma forma geral, que às vezes ficar em silêncio é melhor.

Os dois filmes principais do novo programa da Another Gazer ressaltam a potência dos silêncios de formas muito parecidas apesar da utilização de duas fontes bem distintas.

A questão do silêncio

Em A question of silence (1982), de Marleen Gorris, três mulheres assassinam um dono de uma loja de roupas e acessórios com requintes de crueldade desmedida – um exagero que se faz necessário considerando os materiais utilizados para matá-lo (cabides, saltos de sapatos, vidros e tudo o mais que estivesse à mão das mulheres) e a aparente completa banalidade do crime, já que o homem não havia “feito nada” que “merecesse” tal punição. É um filme de tribunal, em que após breve apresentação das vidas de cada uma das mulheres – uma secretária de uma multinacional, uma pequena proprietária de um café no centro da cidade e uma dona-de-casa mãe de três filhos – a narrativa se desenvolve com flashbacks para 1) aprofundar o conhecimento sobre cada uma delas e 2) mostrar cada etapa do assassinato, a partir do momento que entram na boutique até a morte do dono da loja.

É um roteiro que poderia ser extremamente banal, um filme sobre violência e suas consequências numa sociedade “progressista” e “avançada”; Marleen, porém, traz à luz a questão do gênero, e aí tudo fica mais complexo, rico e gostoso de assistir. O que está em jogo não é saber se são culpadas ou não: logo de cara já sabemos que sim, pois o trio inclusive assina uma confissão do crime; tampouco o filme procura “entender” porque três mulheres normais – essa categorização é fundamental em A question of silence – cometeriam um assassinato tão grotesco; e também não nos resta saber os motivos, já que uma das mulheres sequer conversa com a psiquiatra contratada para avaliar a sanidade mental de todas elas e tentar atenuar a pena.

Assim, o filme desloca o olhar do julgamento moralista que poderíamos fazer, e que de fato é feito no julgamento da trama, para descortinar como essas mulheres já passam por silenciamentos que não são fruto de suas escolhas, como fica claro durante o julgamento das três mulheres quando a psiquiatra está desenvolvedo seu diagnóstico sobre as rés:

Sua recusa em falar [refere-se à dona de casa] agora é a consequência de uma escolha que ela fez. Ela é capaz de se comunicar, mas já não vê sentido nisso.

Psiquiatra durante o julgamento em A question of silence

Então temos três mulheres que se comunicam de forma distinta, sendo que uma delas se recusa deliberadamente a conversar com as outras e com a psiquiatra que, supostamente, pode ajudar a abrandar sua pena. Cada uma delas, como é de se esperar, passa por momentos ou por vidas inteiras de silenciamento que não dependem de suas vontades – são alienadas, pode-se dizer, visto que sua liberdade de falar ou calar está cassada desde que elas compreendem seus papéis de mulheres na sociedade.

A dona de casa passa uma vida invisível em sua própria casa, com seus próprios filhos seu próprio marido – sua voz não importa, mas sim o que ela é capaz de fazer para continuar alimentando a prole e o homem da casa que sai para o trabalho para ser alimentado e voltar a trabalhar (se possível, que encontrem tempo para reproduzir essa engrenagem); a dona do café é uma viúva que não tem mais contato com sua filha e aguenta todo tipo de “piada” sexista e machista de frequentadores do lugar, vivendo sozinha; e a secretária da multinacional é quase um bibelô da corporação, mesmo demonstrando claramente ser mais inteligente e preparada para tocar os negócios que muitos dos homens que se reúnem para obviedades – o dono lhe permite falar, desde que ela se atenha às suas tarefas de controlar sua agenda e servir o cafezinho.

Entrecortando a vida do trio está a psiquiatra designada para ajudar o caso, numa tentativa de abrandar as penas ao diganosticar a insanidade mental de tais mulheres. Afinal, somente loucas desvairadas, histéricas desmedidas, poderiam cometer uma atrocidade sem tamanho:

[Psiquiatra] Você quer dizer que elas são loucas?
[Marido/advogado] Sim, o que mais poderiam ser?

Uma conversa informal na sala de estar

O final não é surpreendente pois já sabemos como ele vai acabar: as três rés estão fadadas à condenação – elas sabem disso, e têm total controle da situação, inclusive sabendo que o que se busca é lhe tacharem como loucas e desequilibradas. Contudo, a tomada de consciência da psiquiatra é o que chama atenção durante o filme: sua atividade passa de uma mera burocracia – estabelecer os motivos para o crime a partir da óbvia constatação que as mulheres são, de fato, doidas – para a total compreensão que aquelas mulheres tão normais, tão absurdamente normais, simplesmente cometeram o crime. Sem julgamento moral, sem motivo, sem trauma que estabeleça a causa-consequência do caso.

Elas realmente são mulheres muito comuns.

Um estalo da psiquiatra enquanto conversa como o marido

É importante notar que apesar de de ser um filme de julgamento, um tipo de obra que é praticamente um subgênero na indústria hollywoodiana e que invariavelmente apresenta soluções moralistas ou respostas sempre bem digeridas para o público (fulano matou beltrano porque…), Question… não está interessado em discutir o julgamento. Isso, aliás, é motivo de muita confusão, como apontou Amelia Groom em seu ensaio no programa.

Se cada uma lida com o silêncio de uma forma diferente, passando inclusive pela literalidade da dona de casa, o teatro do tribunal faz com que os silêncios se choquem e se complementem, se abrecem e criem um novo fenômeno compartilhado, comungado entre as mulheres. Neste momento, aliás, é notável o silêncio cúmplice de outras frequentadoras da loja que presenciaram o assassinato do dono, mas que em momento algum foram incluídas no processo como testemunhas (e, claro, jamais foram deduradas pelas rés).

O silêncio, então, se irrompe numa gargalhada sem fim, vinda das entranhas, também em comunhão agora com a presença também da psiquiatra, que se rende àquelas mulheres quando o riso quebra o silêncio. O título do filme ganha ares de tese: é uma investigação um tanto quanto afetiva sobre o silêncio das mulheres. As gargalhadas, afinal, servem basicamente para demonstrar duas coisas: primeiro, que o sistema judiciário, estruturado, como quase todas as instituições ocidentais, no patriarcalismo, é ridículo, com toda a sua gramática; e segundo, que, ao expor esse ridículo, as mulheres provam sua tese implícita: o julgamento seguirá sem a presença das rés, num teatro que do qual já sabemos toda a dramaturgia.


Eva/Eve

Eva’s man (1976) é um curta facilmente relacionável a Question…, mas o contexto de fundo da personagem-título adiciona ainda mais camadas complexas em sua construção com a raça. Dirigido por Anita W. Addison, que se tornou uma experiente diretora e produtora audiovisual estadunidense, o filme foi realizado no auge da L.A. Rebellion, movimento que tomou conta da University of California, Los Angeles (UCLA) nas décadas de 1960-1980.

Fruto de seu tempo, Eva’s man é também atualíssimo. Assim como a obra de Marleen, a psiquiatrização e patologização da mulher é um dos focos centrais da narrativa. Porém, se no filme holandês somos apresentados a mulheres com vidas estáveis e normais, no curta Anita incorpora um passado atribulado à sua Eva, extremamente misógino e violento.

O recurso do flashback também é utilizado como matéria-prima do filme, mostrando Eva já encarcerada encarando um psicólogo que lhe deixa com um gravador. Assim, somos lançados num longo re-contar de sua história, explicitando sua experiência com homens violentos e com o sexo, e como isso deságua no assassinato que ela cometeu.

Anita, contudo, também se exime, coerentemente, de quaquer julgamento moral sobre a escolha em si de matar um homem – se o assassinato é errado, sua assassina não é uma histérica fora de controle que o cometeu a sangue-frio e/ou sentiu prazer ao fazê-lo. O passado de Eva explica – e não justifica, obviamente – o que aconteceu, sem contudo permitir que a consideremos uma pobre coitada ou uma assassina cruel.

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