“Talking about trees” e o amor revolucionário do Cinema

por Rodrigo Castro
22/10/2021
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Quando o fracasso é grande a esperança fica maior.

Essa citação acontece já no terço final de Talking about trees, dirigido por Suhaib Gasmelbari, quando, depois de pouco mais de 1h de filme rolando, nós e os protagonistas da obra nos damos conta que não, a tão esperada, planejada e sonhada projeção de um filme na tela grande para um grande público não vai rolar no Sudão. E assim o filme sobre cinema vai se encaminhando para um desfecho resignado – mas sem perder a esperança que um dia as antigas salas que ainda não foram vendidas possam exibir histórias e (re)encantar pessoas.

Não são palavras à toa: Omar al-Bashir governou o país durante 30 anos e, dentre tantas situações deploráveis como a guerra em Darfur, também decretou o fim dos cinemas do Sudão. E se não tem sala pra exibir, também não tem porque manter uma companhia de incentivo, e assim a produção, realização e distribuição de filmes também foi interrompida – pelo menos oficialmente. E Talking nos leva pra dentro dessa história a partir do trabalho do Sudanese Film Group, formado por Suliman Elnour, Eltayeb Mahdi e Ibrahim Shaddad.

As encenações são o ponto alto do filme: desde a abertura, que mostra o apreço a produções clássicas e à história do cinema ao reinterpretar os momentos finais de Norma Desmond e Cecil B. de Mille em Sunset Blvrd., passando pelo programa de rádio em que respondem a questões provocativas sobre a morte do cinema sudanês, e chegando na luta para a exibição de um programa de filmes em salas abandonadas, todas as cenas são dominadas pelo mais puro amor ao Cinema. A câmera varia entre registrar as memórias do grupo, contando suas aventuras pela produção cinematográfica em diáspora e no próprio país, e registrar a produção do evento que dispara toda a narrativa.

Cinema revolução

Não deixa de ser notável que os integrantes do SFG tenham passado por grandes escolas de cinema em que política, ética e estética caminhavam juntas, notadamente a VGIK de Moscou. É a concretização de possibilidades cinematográficas que passam por outros códigos e decifrações diferentes – e as vezes opostos – aos que nos acostumamos a assistir, frutos de uma imposição imperialista estadunidense e também europeia.

Notável, também, é perceber como o imperialismo deixou marcas indeléveis no imaginário desses cineastas, que se exilaram ou não, mas passaram por diversos momentos turbulentos na política e na sociedade sudanesa.

Se amar é um ato revolucionário, como diz Chico César, Talking about trees é revolucionário até a raiz: é o mais puro amor ao cinema, alimentado pelo próprio cinema a partir de todas as sua etapas de produção.


Filme assistido no Cineclube Mocambo

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